quinta-feira, 8 de março de 2007

Para quebrar o gelo.....


Tudo começou numa noite fria en Georgetown, ao sairmos do Blues Alley con uns amigos americanos. Conversas sobre tendências do jazz são comuns após shows de grupos novos que se apresentam neste espaço conhecido nos bêcos de Washington. Falavamos sobre a criatividade e a reinvenção cotidiana do jazz e de suas tendências nos Estados Unidos... Cool jazz, free jazz, beebop, bossa nova....Êpa!!! Bossa Nova? Essa não faz parte da criatividade norte-americana? Ou será que faz? Argumentei que, como brasileiro, tinha que dizer que bossa nova era música brasileira da melhor qualidade.

Anos depois, também conversando com alguns jóvens alunos na George Washington University, após uma palestra sobre política social brasileira, começamos a falar sobre música e, ao mencionar que The Girl From Ipanema foi cantada pela primeira vez em português no Brasil, notei que ficaram surpresos. Pensavam que havia sido escrita por algum compositor norte-americano que, ao passar um tempo na cidade maravilhosa, trouxe em sua bagagem, em música e verso, a desilusão de não ter alcançado aquela musa inatingível, a qual foi interpretada pela voz maviosa de Frank Sinatra.

A verdade é que como muitas outras inovações culturais, a bossa-nova se misturou no cotidiano dos norte-americanos e, embora os mais sabidos e viajados a reconheçam e a valorizem como uma música de origem brasileira, outros, após quase cinquênta anos de convivência e mais de três gerações de músicos norte-americanos adaptando e fundindo seus fundamentos aos mais diversos rítmos e estilos, já não a identificam assim. O que é bom vira global e os Estados Unidos, pelo peso gravitacional de sua economia, acaba sendo o centro nevrálgico da globalização.

Mas existe alguma coisa particular à bossa nova que a levou rapidamente ao estrelato internacional: o fato de que, ao nascer no Brasil, teve como padrinhos de batismo renomados artistas – brasileiros e norte-americanos – que adotaram, interpretaram e desenvolveram o estilo. Muitos foram os norte-americanos que, por ela, passaram pelo Brasil e muitos são brasileiros que com ela, partiram para o exterior e para os Estados Unidos. Isto certamente não ocorreu com outros estilos musicais nacionais onde sua nobreza e prodigalidade continua represada dentro de nossas fronteiras culturais.

Tentando buscar o fio da meada dessa história, contei ao amigo Arnoldo Medeiros[1] - compositor renomado de bossa nova, que se incorporou a ela e a outros estilos musicais brasileiros em 1968, com parcerias com nomes famosos como Marcos Valle, Roberto Menescal, Danilo Caymmy e outros – sobre o meu interesse em saber como tudo começou. Através dele passei a conhecer alguns detalhes para seguir pistas, nomes contactos, fatos e eventos que serão explorados e pouco a pouco revelados nesse blog.

Mas ao mesmo tempo, espero que este blog seja um espaço aberto para todos que tenham algum detalhe interessante ou algo a contribuir com essa história que é pouco conhecida tanto por brasileiros como por norte-americanos. A bossa nova é e continuará sendo super-valorizada nos Estados Unidos e, sem deixar de ser uma música de raízes fortemente brasileiras, reinventada a cada dia por nossos artistas, faz também parte da criatividade norte-americana. E isto é também muito bem-vindo porque a música pode ser um dos caminhos mais efetivos para a paz e a integração.

André Medici

Março de 2007